002 - O que a Ciência Cristã não é!



Quando o assunto é a Ciência Cristã, é inevitável surgirem confusões com outros movimentos, religiões ou organizações . Nomes que soam parecidos aos ouvidos do público, ou simplesmente a falta de detalhes sobre a essência de cada grupo, acabam por criar laços onde, na verdade, existem abismos de diferença.

Portanto, antes de desbravarmos os seus caminhos históricos ou nos aprofundarmos em suas linhas doutrinárias, convém passarmos por um saudável exercício de separação. Afinal, para compreender o que algo verdadeiramente é, muitas vezes o passo mais prudente é esclarecer, logo de início, o que ele decididamente não é.

1 | Não é Scientology (a Cientologia)

Esta é, sem dúvida, a armadilha mais frequente em que os desavisados costumam cair, em grande parte pelo eco semelhante que os nomes carregam. Contudo, basta um olhar ligeiramente mais atento para perceber que a Ciência Cristã e Scientology são movimentos que habitam universos inteiramente distintos — tanto em suas certidões de nascimento quanto em seus pilares de fé.

Sobre o fundador a:
  • Lafayete Ron Hubbarda
  • Nascimento: 13 de março de 1911, em Tilden, Nebraska, EUA
  • Falecimento: 24 de janeiro de 1986, aos 74 anos de idade em Creston, Califórnia, EUA
L. Ron Hubbard

Scientology foi fundada por Hubbard por volta da década de 1950, um bom tempo após a Ciência Cristã já estar solidamente estabelecida no mundo. De acordo com os próprios textos oficiais da organização, o movimento se autodefine como “uma fé gnósticab e não possui um dogma obrigatório sobre a figura de Deus para os seus fiéis.c

Há outra linha divisória fundamental: ao contrário da Ciência Cristã, Scientology não adota a Bíblia como escritura. A própria instituição faz questão de pontuar esse aspecto de forma muito clara:

“As palavras escritas e gravadas de L. Ron Hubbard sobre o assunto de Scientology coletivamente constituem a escritura da religião.” d

Assim, embora a semelhança sonora dos nomes possa pregar peças nos mais distraídos, estamos diante de dois movimentos  sem qualquer conexão histórica, doutrinária ou institucional.

Igreja de Scientology de Los Angeles

Referências
b. Scientoloy: Uma Nova Perspectiva Sobre a Vida, p. 25d. Scientology tem uma escritura?, disponível em: <https://www.scientology.pt/faq/background-and-basic-principles/does-scientology-have-a-scripture.html>

Site oficial (mundial): <scientology.pt>

Site das unidades no Brasil:
- Missão São Paulo Leste (Carrão): Dianética do Brasil <https://dianeticadobrasil.com.br/>
- Missão São Paulo Sul (Mirandópolis): Dianética Brasil <https://dianeticabrasil.com.br/>

2 | Não é a Igreja da Ciência Divina (Divine Science Church)

Se avançarmos um pouco mais, encontraremos a Ciência Divina. Trata-se de um movimento consideravelmente menos centralizado, cuja tapeçaria histórica guarda certas ambiguidades, a depender de qual fio ou corrente interpretativa decidamos seguir.

Ao tentarmos montar esse curioso quebra-cabeça por meio de seus registros oficiais, percebemos que as narrativas assumem nuances distintas:

  • Divine Science Church of the Healing Christ (Igreja da Ciência Divina do Cristo que Cura)a: O site aponta que a Ciência Divina foi fundada em 1887 pelas mãos de Nona Lovell Brooks e suas irmãs. Mais tarde, elas teriam entrado em contato com Malinda Cramer, que vivia em São Francisco, descobrindo que ela estava trabalhando na mesma linha de pensamento.

  • Divine Science Ministers Association (Associação dos Ministros da Ciência Divina)b: Já este portal prefere conferir a Malinda Cramer o título solitário de "fundadora", deixando para Nona L. Brooks o papel de "cofundadora".

  • United Divine Science Seminary (Seminário Unido da Ciência Divina)c: Para harmonizar o tom, este site opta por colocá-las no mesmo patamar, referindo-se a ambas como "cofundadoras".

Unindo os pontos com cuidado, o cenário mais provável é que Malinda Cramer tenha iniciado, na efervescente São Francisco dos anos 1880, um trabalho perfeitamente independente voltado à cura mental e metafísica, organizando o Home College of Spiritual Science (Faculdade do Lar de Ciência Espiritual) em 1887. Paralelamente, em Denver, as irmãs Brooks entraram em contato com esse círculo. Nona Lovell Brooks, Fannie Brooks James e Alethea Brooks Small passaram, então, a estruturar uma nova organização em Denver, e foi justamente ali que o nome Divine Science floresceu.

Disso decorre que a história é vista sob prismas diferentes: há quem enxergue em Cramer a mente idealizadora intelectual; quem veja em Brooks a força institucional; e quem prefira o equilíbrio de celebrar a ambas como cofundadoras.

Há momentos em que o mal-entendido não nasce de nós, mas sim dos próprios mecanismos de pesquisa. Na imagem logo abaixo, por exemplo, ao buscarmos no Google pela 'Ciência Divina', notamos um fenômeno peculiar: embora o texto traga a informação correta, os olhos são recebidos por imagens que pertencem, na verdade, à Ciência Cristã.


Fontes consultadas:

3 | Não é a Religious Science (Ciência Religiosa)

Outro equívoco comum nos leva à Religious Science, frequentemente conhecida e chamada de "Ciência da Mente". Ela foi fundada em 1927 por Ernest Holmes. Anos mais tarde, em 1946, um de seus mais ilustres discípulos, o Dr. Raymond Charles Barker, fincou as bases da The First Church of Religious Science in New York City (Primeira Igreja da Ciência Religiosa na cidade de Nova York).

Foi sob a tutela do Dr. Barker, já na década de 1970, que uma jovem chamada Louise Hay iniciou seus estudos, absorvendo as práticas de afirmações e reprogramação do subconsciente que mais tarde definiriam as curas da Nova Era. Louise viria a escrever o célebre "You Can Heal Your Life" (Você Pode Curar Sua Vida) — um verdadeiro fenômeno editorial que já ultrapassou as 65 milhões de cópias distribuídas pelo globo. Vale a menção honrosa de que, nos anos 80, o First Center (Primeiro Centro - nome atual da igreja de Nova York) tornou-se um verdadeiro santuário durante o auge da epidemia de AIDS, estendendo apoio comunitário e cuidados compassivos num período em que muitas instituições se recusavam a ajudar.

A Religious Science não se veste com as roupas de uma "religião" tradicional; prefere ser descrita como "uma filosofia e prática espiritual". O termo "Religiosa" justifica-se, segundo as explicações do próprio site, por se debruçar sobre as grandes questões da existência, como "Como funciona a vida?" e "Qual é o meu propósito?". Eles também não exigem a adesão a uma divindade rígida, explicando sua visão de forma sutil:
“Usamos a palavra 'Deus' para nos referirmos à Inteligência Universal, ao Espírito Criador, à Força por trás de tudo — seja lá o que isso signifique para você. Ateus, agnósticos e pessoas de todas as crenças podem aprender aqui.”

Fonte:
Site do First Center of Religious Science, disponível em: https://www.fcrsny.com/

4 | Não são os Cristãos na Ciência (Christians in Science)

Ao contrário de todas as denominações que abordei até aqui, é fundamental destacar que os Cristãos na Ciência não é uma igreja, não religião e tampouco guarda vínculos com qualquer instituição religiosa. Trata-se, na verdade, de uma associação e rede viva de conexões.

Ela inclui cientistas, pesquisadores atuantes em universidades, laboratórios comerciais e governamentais, empresas de alta tecnologia, engenheiros, além de teólogos, filósofos, estudantes e qualquer pessoa genuinamente interessada nos debates entre ciência e fé. O propósito central é reunir especialistas comprometidos em explorar, de forma interdisciplinar, os pontos de contato entre esses campos, promovendo uma comunicação saudável e integrando a comunidade cristã ao cenário científico.

O movimento possui várias organizações irmãs espalhadas pelo globo, cruzando fronteiras na Austrália, Canadá, Espanha, Estados Unidos, França e Nova Zelândia. No Brasil, a associação foi oficialmente fundada em novembro de 2016.

Portais Oficiais:

5 | A Ciência Cristã (Christian Science)

A origem do movimento remonta ao ano de 1866, um desdobramento que nasceu de uma experiência pessoal marcante: após sofrer uma queda no gelo e enfrentar lesões de extrema gravidade, ela vivenciou uma restauração de sua saúde que transformou seu entendimento espiritual e a conduziu à criação da Faculdade de Metafísica de Massachusetts e a organização de uma igreja "com a finalidade de lembrar e honrar as palavras e as obras de nosso Mestre, uma igreja de cura pela Mente, sem dogmas". (Retrospecção e Introspecção, p. 44)

Notas Biográficas da Fundadora:
  • Mary Baker Eddy (Mary Morse Baker, nome de solteira)
  • Nascimento: 16 de julho de 1821, em Bow, New Hampshire, EUA
  • Falecimento: 3 de dezembro de 1910, em Chestnut Hill, Boston, EUA
Mary Baker Eddy

Longe de se afastar das raízes bíblicas, a Ciência Cristã se estabelece como uma religião cristã, embora caminhe por uma interpretação profundamente espiritual — ou metafísica — das Escrituras Sagradas. Essa forte ligação com o texto bíblico fica evidente no próprio cerne de sua prática, como bem resume um de seus pontos fundamentais:

"Como adeptos da Verdade, tomamos a Palavra inspirada da Bíblia como nosso guia suficiente para a Vida eterna." - Ciência e Saúde, p. 497
Sede da Ciência Cristã
A Primeira Igreja de Cristo, Cientista, em Boston, Massachussets, EUA

Referência
Um mundo mais luminoso, p. 239-243


CONCLUSÃO

Como se nota, o vocabulário e os nomes por vezes se cruzam, tecendo uma sutil ilusão de proximidade ou mesmo partilhando de expressões parecidas no dia a dia. No entanto, quando as cortinas dos bastidores se abrem e examinamos suas identidades reais, fica evidente que estamos lidando com organizações perfeitamente independentes, singulares e dotadas de naturezas completamente distintas.

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